A Estátua que caminha

Impossível não reverenciar um dos fundadores do Movimento Tradicionalista Gaúcho na semana de seu aniversário. João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes nascido em 12 de julho de 1927, em Santana do Livramento/RS, completa 91 anos de uma vida dedicada a cultura e ao povo do Rio Grande do Sul.

Engenheiro agrônomo, folclorista, escritor, compositor e radialista, Paixão Côrtes está imortalizado na sua grande obra de pesquisa sobre os costumes, hábitos e todo universo cultural regional gaúcho-brasileiro. Além de ter sido modelo para a estátua que se popularizou como d’O Laçador, feita originalmente de gesso pelo artista Antônio Caringi em 1954, na cidade de São Paulo. E, que após uma reivindicação popular, para que a obra fosse instalada em Porto Alegre, a mesma foi esculpida em bronze com 4,45 metros de altura e 3,8 toneladas. Inaugurada em 20 de setembro de 1958, se tornou símbolo da capital de todos os gaúchos.

Desde 1947, quando o movimento iniciou com o grupo dos 8 no Colégio Júlio de Castilhos em Porto Alegre, são inúmeros livros, discos, cursos, palestras, publicações em jornais e revistas, uma enormidade de conteúdo, conhecimento, viagens e muito, mas muito tempo voltado a descrever e entender esse ser miscigenado conhecido por gaúcho.

Também Paixão, foi responsável pela abertura do mercado da ovinocultura no Rio Grande do Sul, quando a importação da lã teve uma ampla queda com a domínio do material sintético. Paixão Côrtes, assim como outros, já sabia da grande qualidade da carne ovina. A frente do serviço de ovinotecnia da Secretaria de Agricultura do Estado do RS, no final da década de 60, implantou novos métodos e tecnologias de tosquia, desossa e gastronomia, incentivando o consumo.

Inclusive, pudemos desfrutar aqui em casa da sua visita quando o mesmo assou um cordeiro ao molho de mostarda para nosso deleite, desossado por ele. De fato, é um especialista chef! Hoje, os números da produção de ovinos alcançam os mesmos rendimentos por hectare que a soja, e com investimento menor e menos prejudicial ao meio ambiente. Apesar do grande crescimento na produção e demanda acima do total produzido no país, continua a falta de incentivos no setor aqui no estado.

J C Paixão Côrtes atuou positivamente em diversas esferas. Do homem campo ao intelectual, do modelo de uma estátua a símbolo de um povo. Foi distinguido pelo então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso com a Comenda da Ordem ao Mérito Cultural pelos serviços prestados à cultura brasileira. Do governo do Estado do Rio Grande do Sul recebeu a Medalha Negrinho do Pastoreio também como reconhecimento por serviços prestados à cultura e a Medalha Assis Brasil em destaque por seu trabalho em prol da agropecuária.

Sua aura é maior e sua obra mais pesada que a estátua, pois Paixão, junto de Barbosa Lessa e Glaucus Saraiva, é pioneiro na reculuta da identidade do gaúcho que se perdia em meio a cidade grande na década de 40, quando um taura pilchado era visto com estranheza até pouco tempo.

Esse homem e seus comparsas são responsáveis pela retomada e apropriação pelo povo rio-grandense da sua verdade cultural. Ou seja, se Livramento não tivesse parido Paixão, talvez não teríamos o mesmo conceito de cultura regional gauchesca brasileira como conhecemos hoje, nos livrando do estrangeirismo.

Embora, (ignorantes de que trata-se de 400 anos de história cultural), alguns ainda pensem que isso não tem valor ou que o gaúcho foi inventado, Paixão nesses últimos 70 anos fez o povo do garrão do Brasil se encontrar com a sua essência campesina e conseguiu guardar a identidade e se entender, mesmo nos grandes centros urbanos, se moldando aos novos tempos. Viva Paixão Côrtes a estátua que caminha! O gaúcho está vivo e segue a passos largos, firmezito nos estribos, convicto de sua história verdadeira.

Para pensar: O homem e a terra sempre foram minha identidade! – Paixão Côrtes