Falta envido e truco!

A gauchada gosta muito desse jogo, que também tem seu dia no calendário das datas comemorativas profissionais e sociais do Brasil, está no Livro Agenda Gaúcha na página 10 que, em 11 de julho é o Dia do Truco. Porque? Não achei a resposta, mas talvez seja que nesse dia, tenha nascido ou morrido um grande mentiroso, opa quer dizer, um grande jogador! O fato é que esse jogo é sensacional, trabalha a criatividade, raciocínio rápido, discernimento e a teatralidade, pois o grande truque é o jogador saber esconder do adversário sua condição de jogo, quando está bem, mais ou menos ou mal de cartas, quem se especializa nessa plano, quase sempre ganha, pois aprende a mentir, a dissimular. Tai um perigo, pois alguns levam a sério essa escola, aplicando a regra em todas suas relações, complicando a vida social.

 

Mas o lado bom desse jogo é a farra, no entretenimento e laser, por isso é costume de aonde vai um gaúcho, vão na mala de garupa ou no bolso da bombacha, as cartas, um baralho de Truco, motivo de passa tempo e divertimento, utilizado até hoje no campo, nas canchas de carreira, nos galpões, nos CTGs, nos clubes, nas carpetas da cidade, sendo passado folcloricamente de geração a geração. Meu avô Cantilho Fagundes (chimango) e meu tio-avô Júlio Machado (maragato) foram grandes jogadores de Truco, ensinaram seus filhos o jogo que ainda não se sabe da origem, cientificamente. Há quem diga que é coisa dos mouros, mas certo mesmo se sabe apenas que os ingleses no século dezessete jogavam, dando o nome de Put, e com o baralho dos árabes, se popularizado. Segundo historiadores dos jogos de cartas, os soldados árabes que invadiram o sul da Itália no século dezesseis, quando sem nada para fazer, entre uma peleia e outra, praticavam um jogo chamado NAIB que era como o nosso baralhinho de canastra de hoje, e nem sempre os baralhos tiveram as configurações de naipes como a conhecemos.

 

Voltando ao jogo, com o tempo o Put na Inglaterra, acabou caindo em total desconhecimento, antes porém, fora importado pelos franceses do sudeste chamando de Truc, Truck, Tru, Truka e logo, os espanhóis do nordeste o chamando de Truco, ambos significados refere-se a truque, que nesses países foram adaptados em novas regras e baralhos. Por curiosidade e cultura, no baralho espanhol ou Baraja, as cartas trazem representados o perfil social da época medieval nos naipes: Ouro os comerciantes; Espada os Militares; Copas que em espanhol são taças, representa o Clero; Bastos os camponeses o povo.

Os gaúchos, por geográficas razões, herdaram o baralho e a regra de Truco Cego, tipo espanhol e o resto do Brasil, o tipo francês trazido pelos colonizadores portugueses, é como se joga em Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso e Goiás, com o baralho de Canastra.

 

Por fim é bom ressaltar, que aqui no Pago, como no resto do mundo, muita gente buena perdeu e fez fortuna com as quarenta na mão, inúmeras peleias e mortes se motivaram pelo jogo de azar duns e sorte de outros, nas jogatinas por ganância e ou vício, coisas que não recomendo a ninguém, porque qualquer vício, termina em desgraça.

 

Por isso lá em casa quando guri, os jogos de cartas ou de baralhos, eram determinantemente proibidos, mas como o Diabo sempre acha um jeito de impor sua vontade,  confesso: foi num acampamento de Escoteiro no Imbaá, que para passar o tempo de uma ronda noturna, aprendi jogar Truco, pelo escoteiro sênior Pécos Lopes, (filho do dono da alfaiataria Lopes de Uruguaiana), que sem maldade, pra passar o tempo, nos apresentou um baralho espanhol, escondido da chefia, claro, (e faço aqui o relato porque o crime já prescreveu). Daí, abeira do fogo, com luz de lampião, numa manta verde de milico no chão, depois de receber umas aulas, nos atracamos de mano, a meter – envido, falta envido, truco e vale quatro, que nunca mais desaprendi e muito raramente jogo, de brincadeira, por farra, sem nenhuma aposta a mais que o resultado dos pontos, por exemplo, com o mestre – Nei Fagundes Machado, filho do Tio Júlio.

 

Noel Guarani que devia ser um baita truqueiro, certa feita gravou em milonga: “Se jogo truco ganho e se cantar, comando a farra”, sem querer me exibir, é assim que me sinto!

Para pensar: Advogado que perde prazo e jogador de truco que perde o vale quatro, é chambão!