Um poeta nunca morre

Graças a Deus nosso Rio Grande do Sul, nunca teve crise poética, pois sempre tivemos um poeta de plantão contando as coisas do pago, das formas mais diversas, mas sublimes, as vezes em versos simples e outros rebuscados, mas todos bem gaúchos e verdadeiros.

Foi assim a marcante vida de Antônio Augusto Ferreira, natural de São Sepé, parido em 16 de maio de 1935, um turuna que veio como presente a terra farroupilha que fazia 100 anos da revolução que virou guerra, que como escrevi na primeira semana de março, de uma guerra que não terminou. Mas o foco dessa matéria é o Tocaio, como Antônio Augusto Fagundes o Nico Fagundes, tratava o Ferreira, que viveu entre o campo e a cidade, lidando com cartórios, mas nunca deixou de lado a poesia.

Eu tive o privilégio de conviver poucas, mas fecundas vezes com esse guapo que não deu trégua na defesa deste chão, respirou todo o ar possível dessa querência até que no dia 17 de março de 2008, foi habitar os campos dos justos na Estância do Infinito, junto ao Patrão Celestial e com quem tivera trocado versos neste planeta, ensinando ou aprendendo, pelos galpões.

Sua imortalidade além de seus versos, ficou registrada na cadeira número 28 da Academia Rio-Grandense de Letras, e por vários rincões onde participou de eventos culturais como, o Festival da Barranca de São Borja, a Tertúlia Nativista de Santa Maria, a Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, dentre outros. Foi vencedor de rebenque erguido, na 10ª edição desse fenômeno uruguaianense dos dezembros californianos do milênio passado, tendo como parceiro seu amigo e parente – Everton dos Anjos Ferreira, e Leopoldo Rassier como interprete, acompanhado pelo Grupo Os Serranos, ficando claro aí que os Ferreiras não enfrenavam carreira para perder.

Toda via aqui no plano terreno, nossos dias estão contados, que bom que não sabemos o dia certo quando sairemos desse palco, mas sentimos, como ele Tocaio sentiu que estava chegando o seu tempo. Certa feita em vista no Galpão do Nativismo, na Rádio Gaúcha, levado pelo meu irmão Renato Fagundes de Abreu, de quem o Tocaio tinha grande estima, notei, nessa única participação comigo no lendário programa, que ele falou como se despedindo e nunca mais a vi. Era visível seu mal de Parkinson, mas foi um tumor acelerado no cérebro que o levou ao óbito.

No ano passado, a feira do livro de Santa Maria, sua terra adotiva e querência eterna, lhe prestou justa homenagem, com artistas interpretando a sua obra, que ficará na memória do pago dizendo – “Se lembra o tempo de quebra, A vida volta prá traz, Sou bagual que não se entrega, Assim no mais…”

Para pensar: Só morre, aqueles que nada fazem pelos outros, por isso um poeta nunca morre!